
A origem do carnaval remonta a antiguidade e ao longo dos anos foi incorporando elementos do contexto socioeconômico, cultural e político do país. Nos últimos anos percebe-se uma elevação do nível da consciência política da população e o carnaval deste ano, considerado a maior e mais conhecida festa popular do Brasil, foi uma prova de que as manifestações culturais têm, frequentemente, abordado questões políticas como forma de contestação e conscientização.
A maior tragédia ambiental da história do Brasil foi citada no enredo “Quem nunca sentiu o corpo arrepiar ao ver esse rio passar”, da Portela, campeã no Rio de Janeiro. Além de abordar a importância dos rios para as comunidades ribeirinhas e a necessidade da preservação das matas em torno das nascentes, a escola trouxe à tona o desastre ocorrido com o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. A bacia do Rio Doce recebeu nada menos que 55 milhões de m³ de lama e até agora ninguém foi punido. Dezenove pessoas morreram, a economia de vários municípios foi afetada, dezenas de famílias que sobreviviam da agricultura familiar perderam suas propriedades e a relação afetiva com a terra. A lama destruiu a vida no Rio Doce, entrou mar adentro e afetou milhões de pessoas que dependiam do rio para viver.
Os impactos ambientais gerados pela construção da usina hidrelétrica de Belo Monte foi tema abordado no enredo “Xingu: o clamor que vem da floresta”, da Imperatriz Leopoldinense. A escola ousou ao denunciar as mazelas do agronegócio no Brasil, sobretudo sobre o uso abusivo dos agrotóxicos. Vale ressaltar que o país é o maior consumidor de defensivos agrícolas ou agroquímicos do mundo. Muito além de trazer para o desfile personagens com penachos, cocares e adereços indígenas, a Imperatriz trouxe à tona a luta desses povos pela terra. À custa de aumentar a produção de energia elétrica no país, grupos indígenas e populações ribeirinhas viram o projeto enterrar suas terras, sua história e tradições culturais.
E o que dizer dos gritos “Fora Temer” ressoados nos quatros cantos do Brasil nos blocos carnavalescos e trios elétricos? Ao contrário do que se possa pensar, a alegria e o clima festivo característicos da festa popular, não geraram apatia ou indiferença à situação política do país. A aglomeração de milhões de pessoas se tornou ambiente propício para manifestar a insatisfação popular com o atual governo.
“Crime”. “Fome”. “Sem vida”. Quando uma escola leva para a avenida passistas carregando cartazes com esses dizeres para denunciar a morte do Rio Doce, é sinal de que o carnaval tem ganhado novos contornos. E que a exultação da festa não é ofuscada pelo contraste que a denúncia carrega. Afinal a luta e a superação estão arraigadas na alma do brasileiro, tal como a alegria.
*Padre João – deputado federal
Artigo publicado no Jornal O Tempo, terça-feira, 7 de março de 2017




